04/09/2015

Por uma Psicologia com todos e com todas

Escrito por Vinícius Saldanha, dirigente SinPsi

No último dia 27 foi comemorado o Dia Nacional d@ Psicólog@. A profissão, regulamentada no Brasil em 1962, chega aos seus 53 anos com a marca de cerca de 250 mil profissionais devidamente inscritos, com inserção profissional cada vez mais marcada por uma diversidade de saberes e práticas.

Como diz o lema de uma importante campanha do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, a Psicologia, ao contrário dos seus tempos primórdios de atuação no Brasil, quando se pautava por perspectivas individualizantes, normatizantes e patologizantes, demarcando um terreno muito específico de atuação, ofertando seus trabalhos especialmente para aqueles que podiam custeá-los, hoje se faz presente "todo dia e em todo lugar".

Faz-se Psicologia em uma ampla gama de práticas, que contempla o esporte, as questões ligadas à terra, as populações indígenas e quilombolas, as emergências e desastres, entre diversas outras práticas, muitas delas inovadoras, como têm nos mostrado as recentes mostras de Práticas Inovadoras em Psicologia, os documentos de referência do CREPOP e o próprio Congresso Brasileiro de Psicologia, Ciência e Profissão. Além de outras práticas já de certa forma consolidadas, como no caso das inserções da Psicologia nas políticas públicas, principalmente nas áreas da saúde pública em seus diferentes níveis de atenção, e na assistência social em seus diferentes níveis de proteção. Tais práticas podem ser conferidas no vídeo institucional do SinPsi, acessível neste link: http://migre.me/rqVVI.

Estamos na era do patamar diversificado de atuações e referenciais teóricos. A Psicologia está cada vez mais comprometida com o social, com o enfrentamento dos problemas cotidianos vivenciados pelos brasileiros e brasileiras, especialmente por aqueles que são historicamente e recorrentemente negligenciados e oprimidos pela desigualdade, a violência, a privação de direitos. Mas, apesar dessa Psicologia que vem para se somar a lutas históricas e populares, aparentemente ainda existe na sociedade uma visão muito circunscrita da profissão ainda, quase que exclusivamente, associada à Psicoterapia. Há um reconhecimento geral de que ocupamos novos espaços, porém também parece se fazer presente no imaginário a ideia de que fazemos Psicoterapia nesses diferentes espaços. Esse imaginário se faz presente nas redes sociais, no cotidiano dos serviços e em muitos cursos de formação que ainda subestimam as práticas emergentes e as políticas públicas.

Guardadas as devidas particularidades de cada espaço em que nos inserimos, de maneira geral isso ocorre até mesmo nos segmentos mais progressistas. Tem-se essa certa incongruência entre o que fazemos (ou nos dispomos a fazer) e a maneira como nossa prática é vista.

É claro que de um lado temos uma democracia extremamente jovem, na qual a própria noção de política pública é pouco compreendida e até mesmo atacada. Temos também grande influência do pensamento neoliberal nessa curta trajetória democrática, que propaga visões individualizantes e, consequentemente, clientelistas e estigmatizantes de homem e de mundo, além da própria característica da pós-modernidade, a de se estabelecer a cultura da especialidade, do engajamento fragmentado e da leitura recortada da realidade. É óbvio também que a própria Psicologia, durante muito tempo, ajudou a propagar uma visão restrita (e até certo momento, verdadeira) dela própria.

Ao percebermos esse atual cenário de confusão com o papel d@ psicólog@, percebemos também que muita coisa já mudou, ou seja, avançamos muito, porém, do contrário, sequer estaríamos falando das contradições que o processo de mudanças acarreta.

De todo modo, é importante salientar que ainda temos muito mais a avançar. Diante disso, ficam vários pontos de interrogação. Será que a inserção d@s psicólog@s nas políticas públicas, em áreas diversas, é capaz de acarretar mudança na maneira como nossa prática é vista pela sociedade, se essa inserção não for acompanhada de um novo referencial, democrático, participativo, popular? Será que uma vez inseridos em novos campos, em novas casas, às vezes estamos carregando toda a nossa mobília, os nossos métodos, pré-conceitos, ou seja, transpondo práticas hegemônicas para novos contextos, o que tem dificultado o processo de quebra de paradigmas? Mais do que isso: como podemos estar de fato lado a lado com o povo, no dia a dia dos atendimentos e no projeto de país que queremos?

São reflexões que precisamos aprofundar para que, além de uma Psicologia presente todo dia, em todo lugar, tenhamos uma Psicologia com todos e com todas.