05/10/2016

A antipolítica é a política que beneficia quem hoje está no poder

Escrito por Vinicius Saldanha, dirigente SinPsi

A "antipolítica" é a política que beneficia quem hoje está no poder
No primeiro turno das eleições municipais deste ano, mais de 25 milhões de eleitores (17,58%) não compareceram à votação. Em alguns municípios, o índice de abstenção passou dos 30%. Somando-se os votos brancos, votos nulos e abstenções, tem-se um índice maior do que os dos primeiros colocados em 22 capitais brasileiras.

O alto número de abstenções, votos em branco e votos nulos merece ser analisado de maneira mais aprofundada, inclusive considerando possíveis recortes de renda, gênero, escolaridade, entre outros que permitam compreender melhor seus significados. Porém, me proponho a destacar aqui - longe de querer dar ares definitivos a uma discussão muito mais ampla - determinado aspecto que acredito manter importante relação com o enunciado: a antipolítica tem se mostrado, sobretudo, uma estratégia de hábeis políticos movidos por interesses baratos, antipopulares e sem qualquer ética. Nesse sentido, votos brancos, nulos e abstenções, "vitoriosos" nessas eleições, têm muita relação com um discurso que é ventilado pela grande mídia, e que ganha força em vários segmentos de nossa sociedade, que diz que "político é tudo igual", que "ninguém presta", que a política é inerentemente corrupta e imoral.

Obviamente, há muitos problemas no sistema político brasileiro, mas esse alto índice de abstenções não parece ter a ver com um posicionamento mais crítico sobre o tema, embora, com a ação qualificada dos movimentos, o quadro possa viabilizar a preparação de um terreno fértil para uma Reforma Política, por exemplo. No momento, entretanto, não os vejo como votos - ou "não votos" - de protesto, mas sim como reflexos dessa campanha maciça, que tem como objetivo criminalizar a política, desencorajando os cidadãos do engajamento para as transformações necessárias nesse âmbito.

Não se trata, então, de construir uma mobilização visando melhorar a política, pelo menos não no sentido que desejamos, com fortalecimento das instâncias democráticas, com mais participação e representatividade, mas sim de afastá-la, reprimi-la, ou de simplesmente "aceitá-la como é". Observa-se um sentimento em boa parte da sociedade de que a política é algo inerentemente ruim. E é ruim, segundo esse pensamento, sobretudo quando é utilizada para combater desigualdades, ou é ruim porque tem muito candidato do "povão", ou é ruim porque se mete na sua vida, ou é ruim porque quebra paradigmas, é "complicada" demais para se entender.

Vejo surgir o que, a meu ver, se parece muito com a figura do "síndico", enunciada por Christian Dunker. Aquela figura do especialista, aquele que aparece "para descomplicar", para lidar com os problemas da maneira mais prática possível, dando "soluções" que, por sua vez, estão longe de chegar à raiz dos problemas, mas que cumprem um determinado papel de aparentemente resolver as coisas, sem espaço para grandes dilemas, para grandes reflexões. Não por acaso, são poucos os que comparecem às reuniões do condomínio, da escola dos filhos, do sindicato, da associação de moradores do bairro etc. Delegam as decisões a outrem, no caso, o tal "especialista" para a função.

Em nossa política cotidiana, com os Dórias da vida, temos nossos administradores, gestores, gerentes, que prometem se empenhar ao máximo para que tudo permaneça como está. A nossa antipolítica é, na verdade, lutar para que nada mude, é cercar e se cercar de convicções, sem o espaço para o diálogo. A tal antipolítica é a política que beneficia quem hoje está no poder, e eu só vejo os trabalhadores perdendo com isso. Nossas ações, como movimento, também precisam considerar a cultura como instrumento de transformação social.

Quando nos deparamos com a barbárie anunciada pela agenda golpista de retirada de direitos, com a violência e com as desigualdades ainda brutais que marcam nossa sociedade, não são plausíveis abstenções, nem nas ruas, nem nas urnas. Como dizem @s companheir@s do Levante Popular da Juventude, é fundamental conquistarmos corações e mentes.

Por uma vida na qual tomemos partido!

Por uma vida com menos abstenções!